26 maio, 2016


Na 3ª noite da 1ª Semana teológica do Seminário Teológico Jonathan Edwards a ministração a respeito do tema (A teologia dos pais da Igreja) foi por Jairo Rivaldo, o filósofo esteve falando sobre a filosofia nos Pais da Igreja, confira.

Clemente de Alexandria

Nada se sabe do seu nascimento, mas acredita-se que tenha sido martirizado por volta de 216 d. C.. Existem 5 livros de Clemente que nos chegaram: Exortação aos pagãos (É Relaizações), O instrutor, Stromata (miscelâneas), Quem é o rico que será salvo? E Seleções de Teodócio.

Além de trabalhar os conceitos de Logos e de Verdade quase nos mesmos termos que Justino, Clemente se debruçou sobre o que ele chamou de gnosticismo verdadeiro.

*Gnosticismo verdadeiro

Para Clemente o cristão era o “verdadeiro gnóstico”. Não devemos confundir o gnosticismo de Clemente com a filosofia gnóstica dos seus dias. o gnosticismo surgiu provavelmente no Egito no II séc. a.C. e pregava uma salvação pelo conhecimento (daí o nome gnose).

A maioria dos historiadores considera essa filosofia o maior desafio da igreja primitiva depois do judaísmo. Haviam muitos ramos do cristianismo que eram gnósticos, a maioria dos evangelhos apócrifos encontrados no Egito em 1945 foram escritos por esses grupos.

Por gnóstico verdadeiro ele se referia a uma pessoa que vive da mente, que não segue os prazeres efêmeros desse mundo. Por essa razão ele considerava Sócrates e Platão como cristãos antes de cristo.

A influência da filosofia grega sobre o pensamento de Clemente manifestou-se de várias maneiras. Em primeiro lugar, ele tratava o corpo e a matéria como uma “natureza inferior” e os contrastava nitidamente com a natureza “superior e melhor” da alma, que descrevia como a parte racional do indivíduo. Nesse ponto ele difere do gnosticismo, pois nega expressamente que a matéria ou o corpo são iníquos. São apenas inferiores ao espírito e à alma.

*Deus na Filosofia teológica de Clemente

As ideias de Clemente a respeito de Deus e da imagem de Deus no ser humano revelam sua instrução grega. Repetidas vezes, Clemente reitera a opinião de que Deus não tem paixões e que é assim que o verdadeiro gnóstico deve ser. “Imitar a Deus” pela “instrução do Verbo” (Jesus Cristo) significa esforçar-se para atingir um estado perfeitamente livre de paixões por meio do autocontrole. As paixões e os desejos são limitantes por natureza e Deus, de acordo com Clemente e com a filosofia grega predominante naquele tempo, é livre por natureza de todas as limitações das criaturas, inclusive de paixões (desejos e emoções). O Deus de Clemente era semelhante ao deus da filosofia grega, um a unidade simples sem partes nem paixões, que não pode nem mesmo ser descrita a não ser por comparação e que só se relaciona com o mundo da natureza e da história por intermédio de um ser intermediário chamado Logos.

Nesse ponto a sua maior influencia é o estoicismo.

Orígenes (185-255)

Talvez seja o mais controvertido dos antigos pais, contudo fora um gênio. Alguns historiadores acreditam que ele foi o escritor mais prolífico da antiguidade (acredita-se que ele tenha escrito mais de 800 obras.

As obras mais importantes que nos chegaram foram Contra Celso e Dos Princípios Fundamentais.

O interessante é que embora profundamente influenciado pela filosofia grega (especialmente o neoplatonismo) Orígenes era perfeitamente capaz de se colocar contra ela quando ela contrariava a revelação.

Segundo Orígenes, a filosofia é incapaz de produzir um conhecimento salvífico de Deus, porque “nela a falsidade está inextricavelmente misturada à verdade”. Apesar disso, concordou que a própria teologia cristã é um tipo de “filosofia divina” que supera e substitui todas as demais filosofias e que pode usá-las como servas da tarefa de levar às pessoas um conhecimento verdadeiro de Deus e da salvação.

Orígenes em pregou um a analogia do AT para ilustrar a atitude cristã correta diante da filosofia grega. Como o povo hebreu que levou consigo bens dos egípcios no Êxodo, o povo de Deus sempre teve permissão de usar os “despojos egípcios”, tomando em prestada a verdade de fontes pagãs, quando era útil para esclarecer o significado das Escrituras e transmitir o evangelho a pagãos interessados. Desde Orígenes, “despojar os egípcios” tornou -se lugar-comum na teologia para o emprego cristão de ideias pagãs ou seculares.

*O legado ambíguo de Orígenes

Orígenes foi um grande intelectual, e essa é uma das acusações que pesam sobre ele, especialmente na tradição grega. Ele foi condenado no segundo concílio de Constantinopla 553. Foi acusado de ensinar que a alma existia antes de assumir um corpo. De fato, a explicação de Orígenes para o fato de Deus amar Jacó e odiar Esaú foi justamente essa. Esaú deve ter feito algo no estado preexistente, por isso Deus o rejeita.

Baseado em 1 Co 15: 28 onde é dito que na consumação “Deus será tudo em todos”, Orígenes acreditava na restauração de todas as coisas (doutrina popularmente conhecida como universalismo).

Embora tenha caído em muitos erros, Orígenes foi um dos grandes inspiradores dos teólogos ortodoxos que o sucederam. 

A cristologia de Orígenes

Quando Celso atacou a divindade de Cristo, Orígenes respondeu ortodoxamente “o que faz parte da natureza da deidade é comum ao Pai e ao Filho”.

A doutrina de Deus

Orígenes também foi capaz de equacionar a transcendência e a imanência de Deus de forma paradigmática até hoje usada nas nossas teologias sistemáticas. Para os platonistas e neoplatônicos, o ser divino era totalmente transcendente, desprovido de um corpo ou de paixões. Isso colocava a divindade de Jesus mais uma vez em xeque. De acordo com Orígenes, “Pois, permanecendo imutável em essência, ele condescende aos assuntos humanos pela economia da providência”.

Orígenes também foi importante na elaboração ortodoxa do conceito de Trindade. Em tempos onde havia sempre uma tendência de se considerar a Trindade como uma escadinha onde o Pai é o maior, ele afirmou: “nada na trindade pode ser chamado maior ou menor”.

Agostinho (354-430)

Agostinho foi o maior teólogo do cristianismo antigo e medieval por pelo menos mil anos.

Sua obra é vastíssima e sistematizou muitas doutrinas do cristianismo. Sua influencia sobre os reformadores também foi notável, especialmente sobre Lutero e Calvino. Contudo, não devemos fazer, como muitos teólogos reformados que transformam Agostinho num calvinista ou num luterano. Além de ser um verdadeiro anacronismo, a verdade é que Agostinho era um teólogo católico romano.

Acho que essa parte da palestra poderia ser chamada de “a desconstrução de um ídolo”.

Então antes de dizer que você é agostiniano tenha em mente isso: Agostinho defendia

*O cânon mais longo das Escrituras (LXX): A doutrina Cristã

*A regeneração batismal. Carta 98, Cartas contra os pelagianos; Sermões aos catecúmenos sobre o credo: “Existem três maneiras dos pecados serem perdoados: no batismo, na oração e através da penitencia, mas Deus não perdoa pecados exceto pelo batismo”. Cap. 7:15.

*Presença Real de Cristo na Eucaristia: Sermão 227 (411 d. C.). “O pão que vocês estão vendo sobre o altar, que está sendo santificado pela palavra de Deus, é o corpo de Cristo [...] o cálice que está sobre o altar sendo santificado pela palavra de Deus é o sangue de Cristo”. Além disso, para Agostinho a missa era um sacrifício e sem participar do sacramento da ceia ninguém poderia ser salvo.

*Crença no purgatório e na oração pelos defuntos. Manual da fé, esperança e caridade (421 d. C.); O cuidado devido aos mortos cap.1:3.

Poderíamos citar outras crenças, mas já é suficiente para provar que Agostinho faz parte da tradição católica.

Mas sua influencia sobre a tradição cristã é muito grande (trindade). Na fé reformada, sua influencia se deve aos seus escritos contra os pelagianos onde ele defende a graça, a doutrina do pecado original. Também quando escreve sobre predestinação e sacramentos. (ex opere operato).

Sobre como o platonismo e o neoplatonismo o influenciaram...

*Deus = Sumo Bem de Platão = Uno de Plotino

Isso está claro nos comentários que Agostinho faz no livro do Genesis.

*Matéria preexistente X criatio ex nihillo

(Claudio Moreschini), Agostinho a crença na eternidade da matéria.

Mas como conciliar essa crença com a fórmula creatio ex nihilo? (formulada por Filo em 50 a. C.).

Ele usou um comentário de um neoplatônico sobre o diálogo de Platão chamado Timeu. Ali é dito “Deus criou não somente a forma, mas também a possibilidade de ser formado”.

De acordo com Agostinho, a capacidade de receber forma constitui o aspecto positivo da matéria (ao contrário do que os gregos diziam), portanto a matéria já participava da bondade de Deus, o que a tornava eterna.

No livro XII das confissões lemos no cap. XVII:

“Mas de onde essa matéria tirava seu ser, senão de ti, por quem existe toda e qualquer coisa?”.

*O Mal

Essa sem dúvida é a doutrina agostiniana mais influenciada pela filosofia grega. As raízes dela estão em Platão, nos estoicos e em Plotino.

Entre os estoicos o mal seria um correlato do bem. Não haveria verdade se não houvesse mentira, não haveria justiça se não houvesse ofensa, não haveria trabalho se não houvesse preguiça. (dualista).

A concepção do mal como ausência do bem (não-ser) pode ser lida na obra Cidade de Deus, livro 11, cap. 22. “todas as coisas são boas, e o mal não é substancia, porque se fosse substancia seria bem”.

Contra a resolução de Agostinho há discordâncias mesmo entre os que se dizem agostinianos (ex: Gordon Clark, em Deus e o Mal o problema resolvido).