07 dezembro, 2016


Nos dois informativos anteriores abordamos sucintamente o que pode ser extraído da leitura do Novo Testamento sobre o governo das igrejas cristãs primitivas. Denominamos “soberania-independência” (ou soberania na vertente externa) a plena paridade na convivência entre elas e “soberania-democracia” (ou soberania na vertente interna), a participação de todos os membros em suas decisões mais importantes. No primeiro plano, Cristo assume, sem intermediários, o governo de cada uma de Suas igrejas do modo como o faz com a Igreja universal; enquanto o segundo pontua que tal governo é exercido a partir dos comandos que Ele, a cabeça, emite para cada um dos membros do Seu corpo, que é a Igreja (Ef 1.22, 23).

Os mais atentos ao tema perceberam que evitei usar o termo “autonomia” para referir-se àquilo que denominei “soberania-democracia”. A omissão foi proposital, pois imagino que o vocábulo deve ser reservado ao labor dos líderes eleitos pelas comunidades e designar o raio de atuação a eles congregacionalmente conferido. “Autonomia”, propomos, é a liberdade concedida ao pastor (ou pastores/presbíteros), pelas igrejas que os elegeram, para decidirem na esfera de sua atuação aspectos relacionados com o seu mister. As igrejas gozam de soberania; os seus líderes, de autonomia. Isso abre oportunidade para pensarmos o valor e o lugar indispensáveis dos pastores de ordem congregacional, muita vez submetidos a assembleias nada cordiais. Mas, confessamos, o tema aqui ventilado é tão só uma digressão dispensável.

Retomando o caminho, “congregacionalismo” é a perspectiva que admite esse panorama de governo eclesiástico como normativo à toda cristandade. Isso quer significar que o 'modus vivendi' primitivo (ou, melhor, seu 'modus governandi') 'deve ser/deveria ter sido' adotado em todos os lugares em todos os tempos por cada uma das congregações cristãs, segundo inúmeros congregacionalistas. Ocorre, todavia, que todos os desdobramentos históricos posteriores militaram contra o congregacionalismo primitivo, como passo a explicar.

A uma, a distinção entre bispos e presbíteros no âmbito da igreja local, já no primeiro quartel do segundo século, pavimentou o caminho para o surgimento de bispos diocesanos, cuja ascensão ensejou a disputa por poder entre as igrejas sediadas em cidades mais politicamente influentes, que, por fim, conduziu à supremacia do bispo de Roma, no Ocidente, e do patriarca, no Oriente. A duas, o nascimento do clericalismo com sua ruptura radical entre clero e laicato, fato relacionado diretamente com o ingresso de hordas bárbaras semipaganizadas às fileiras da Igreja, findou por retirar o ministério do povo e concentrá-lo nas mãos dos novos “sacerdotes”. Esses fatores conjugados explicam como o povo cristão, vocacionado para o protagonismo espiritual e administrativo no ambiente da nova aliança, foi sendo paulatinamente alijado dos processos decisórios e tornado mero expectador.

Os reformadores dos séculos XVI e XVII não foram unânimes quanto à compreensão do governo da Igreja. A maioria, de fato, sequer concebeu a plena separação entre Igreja e Estado, de modo que não seria desarrazoado admitir que foram, no tocante ao governo eclesiástico e por razões de oportunidade e conveniência que a história explica, pragmáticos. No entanto, em um movimento tão vigoroso de retorno às Escrituras como a Reforma Protestante seria simplesmente impossível que vozes altissonantes não se erguessem para defender o retorno ao governo eclesiástico neotestamentário, o que de fato ocorreu a partir da lavra de homens da envergadura de John Owen e Jeremy Burroughs.

Vejam meus irmãos que ainda não me senti pronto para avançar e relacionar o congregacionalismo como forma de governo com o “êxodo congregacional” e o espaço já acabou. Prometo que o farei em futuras oportunidades.